terça-feira, 1 de setembro de 2009

como o vento

que passa e se vai

que não se mede 

que não se vê

que se sente


como um vento quente no deserto


como um vento húmido numa noite no mar


como um vento gélido numa montanha alta


sinto-me como o vento


um vento sem passado nem futuro


que corre incessante

sem destino 


numa busca

numa fuga


que não vai nem vem

que procura uma razão de existência


que procura

procura

procura

procura


que venta sem sentido ou razão

que voa sem destino


que quer parar e não consegue

que por vezes traz chuva e chora


que por vezes sente falta dos sítios onde passou

 

das pessoas 

das faces que tocou


que por vezes morre devagar em desespero


que por vezes ri

como uma trovoada de verão

poderosa e intensa


mas sempre passageiro

que não fica

não consegue ficar

não que não queira...

mas simplesmente não consegue ficar

e voa

venta


sem destino...

que procura na noite a calma dos elementos

que se revigora com o nascer do sol


vento que procura a mudança

que procura parar

vento que provoca e urge na sua passagem


um vento que leva as memórias de histórias que foram esquecidas


um vento que guarda em casa

todos aqueles que gosta


todos os que também andaram perdidos

ou se perderam


um  vento que procura um filho que nunca encontra


um vento que foge de um filho que o prenda


um vento que não sabe para onde ir

nem para onde quer ir


um vento que não quer magoar com a mudança

mas morre com cada paragem


vento que procura os que se foram

que chora a saudade dos que já não pode abraçar


vento que queria voltar para trás...

vento que por vezes passa sem se aperceber

sem ser percebido

quase nunca compreendido


vento sem definição...


vento que nem a si se consegue encontrar

vento que busca incessantemente

por tudo sem saber o quê


vento que por vezes não consegue falar

não consegue cantar

não consegue sorrir


passa apenas.

para onde?

para onde irá o vento?


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

o prazer do Viajante

o prazer do Viajante, "reside", passo o paradoxo, no valor dos conhecimentos que se vão adquirindo. sejam as pessoas e culturas com que nos cruzamos, as paisagens, os cheiros ou os sons do mundo!


nos anos de vida que já conto e não sendo muitos, tenho tido o privilégio de cruzar várias realidades, numa Viagem pelo tempo e pelas gentes que nele circulam.  Viajo não para ir a algum lado, mas simplesmente para ir! no metro olho à volta e tento adivinhar as vidas, as histórias por detrás de cada cara ou melhor, dentro de cada pessoa. são os estudantes que no inicio dos estudos, brincam entre si, com o simples atirar de papeis, ou no segundo ano de faculdade, vivem a utopia de mudar o mundo e salvar a floresta ou leem ávidamente um qualquer jornal de economia, com sonhos ligeiramente yuppies de um neo liberalismo que nos dias de hoje parece ser ainda mais fantasioso. é o velhote que tenta manter o animo apesar da conta da farmácia, mas grato pela proliferação de escadas rolantes que aparecem em cada esquina e subida. uma mulher com um fato de calça e casaco cinzento listado, que realça as curvas sensuais do corpo, aperta na cintura, e faz parecer existir vida por debaixo de a camisa branca. altiva, elegante, segura de si mesma, conflui em si os olhares dos homens que com o mesmo fato cinzento se resumem a ser iguais a todos os outros que trabalham na cidade, quase que indistintos. mas o cruzar de olhos momentâneo, com a mulher, mesmo que insignificante ou indelével, provoca uma descarga adrenalínica de auto estima e conversa para um dia inteiro com os colegas de escritório ou companheiros de ginásio! chega a ser confrangedor a previsibilidade de nós homens...


um jovem indiano olha por uma janela de uma carruagem que nada mostra a não ser a escuridão dos túneis, talvez pensando na namorada que ama mas que a a família não aprova. são os polícias que conversam entre si, mantendo uma "descontraída atenção" a tudo o que se passa à volta e provocando junto dos passageiros um sensação de segurança.


contrasta com a calma depois de almoço da uma ilha no sul, onde a população, quase toda dedicada à pesca ou ao marisco, já regressou do mar. não existem nem estradas nem carros, autocarros ou qualquer outro meio terrestre de transporte publico e o tempo é marcado pelo "barco da carreira" e pelo tempo que faz no mar! aldeia que vive a um ritmo próprio e a missa de domingo por vezes não acontece porque o mar, mesmo dentro de ria, não permite que a marinha traga o padre para a liturgia.


acordar de manhã num dia e escutar o som do carros dos bombeiros que sai em mais uma emergência do quartel que fica apenas aqui a uns metros. o avião que aterra na enigmática portela, que ora chega, ora precisa de mais um aeroporto, mas que vê os gigantes do ar a chegarem e partir todos os minutos.

deitar-me à noite no silêncio da ria formosa, com o cachimbo aceso e com um chá de menta numa caneca que fumega docemente na imensidão que envolve o barco.


dois mundos completamente diferentes, mas que vivem a apenas 2 horas e meia de distancia. as distancias geográficas mantêm-se mas os tempo encurtam-se ou dilatam-se ao gosto do viajante.


desde pequeno que tive a sorte de ter viajado muito por Portugal, com o meu avô!, Na altura que o Algarve ficava a pelo menos 5 horas de distância de Lisboa. saíamos cedo, parávamos em Alcácer do Sal, Torrão, Beja, Mértola até Vila Real de Santo António. em cada paragem, o meu avô parecia chegar a casa e ver os amigos de sempre! Sempre me fascinou como teria tantos amigos em tantos lugares!!! chegados a Vila Real, fazíamos uma rápida paragem em casa e íamos até à capitania, onde estavam os antigos pilotos da barra do Guadiana e onde o meu avô foi um dos últimos pilotos e durante quase 18 anos.

a viagem era um fascínio avassalador! as diferenças entre cada uma daquelas gentes, daquelas paisagens, da luz em cada região e em cada momento do dia, terminava em glória com a chegada no fim do dia à aldeia da Manta Rota, quando esta se resumia a umas quantas casas!


podemos viajar por muitas zonas geográficas diferentes e longínquas, mas a viagem está especialmente em nós mesmos! por vezes, basta fechar os olhos, ler um livro. sonhar.


ao longo dos anos tornei-me um viajante. viajei com a família, à boleia, de bicicleta, de moto, de jipe e de carro, de metro e de comboio, de avião, avioneta e balão, de barco e moto 4, a pé ou apenas sentado a olhar para o horizonte, ou quem sabe de olhos fechados a sonhar com a viajem que ainda não fiz.


como o vento, viajo sem parar. 

e é sobre isso que gostaria de partilhar, nas Histórias da Casa do Vento.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

you are...


 

you are a fresh breeze from the sea

 

that comes on a hot day

 

that makes my day better

 

and brighter

 

and full of joy

 

you are a dream too close to be real

 

to dangerous to became true

 

too desired to be avoied

 

you are a wish of far away countries

 

unspoiled landscapes of africa

 

deep blue as the middle of an ocean

 

you are a wind I can not explain

 

and I dont want to explain

 

a flow that is impredictable

 

a sea that goes around my soul


cover my body on a gentle touch


some times warm

 

some times cold


you are something I do not feel the need to understand, 


just feel

 

maybe because all I have said may simple have no sence

 

my life is like a book

 

that I am writing every day a new page

 

that every story may became a tale

 

that some day, at a certain moment,

 

when my life will be about to end

 

I will look back on my "book"

 

and I will smile!

 

I will be free

 

and you will be there!

domingo, 26 de julho de 2009

paradoxos da vida ou da culatra




numa ilha onde não existem, carros, camionetas, motas ou trotinetas, nem sequer alcatrão, não deixa de ser paradoxalmente encantador que de quando em quando tenhamos que no meio de uma conversa, parar uns momentos para deixar terminar o barulhos das maquinas... os aviões!


numa ilha com cerca de 1300 pessoas, onde o temåpo parece ter parado num movimento acompanhado pelas coisas boas da vida, por cima passam milhares de pessoas diariamente! sem saberem, sobrevoam um paraíso perdido no sul do velho continente.

das altas tecnologias de um

aeroporto, para a calma aparente da culatra.


mas o paradoxos seguem-se num encadear delicioso. no inicio, na altura em que aqui cheguei, em outubro depois de ter feito a travessia de uma outra ilha, em paragens mais a sul, Porto Santo, já a época balnear ia longe. olhei, para os cafés e pensei: do que será vivem estes cafés no inverno... ou no outono e na primavera?!? e o paradoxo segue... depois da faina no mar, ou da ida à “maré” os ilhéus juntam-se nos cafés e convivem!!! e muito!!! a ilha tem o índice de consumo de cerveja mais elevado do país! e lá vem mais um paradoxo: nunca ninguém parece embriagado. existe um estado quase zen de levitação para o próximo paradoxo: o isolamento que atormenta é muito desejado e a maior parte dos ilhéus já passou pela experiência de viver no continente e voltou!!! e para ficar de vez, mas sempre indo a “terra”.


num mundo em que as mulheres ainda lutam pela igualdade de direitos, encontramos na culatra uma sociedade completamente igualitária! cada qual tem as suas tarefas. profissionais e sociais. no final do dia, a seguir ao almoço, homens mais concentrados nuns cafés e mulheres o mesmo! e o no consumo da levedura da cevada, elas só alteram o equilíbrio porque bebem sempre com verticalidade na altura em que os cavalheiros, já começam a acusar o balanço do mar.


o pôr do sol é simplesmente fabuloso. na costa atlântica, ou voltado para a ria formosa. o isolamento convida à contemplação. será este isolamento uma benção ou um fado?


depois de 3 dias no mar, chegámos a Olhão, deixando a

Culatra por estibordo. na altura, olhei e murmurei um “ até jazz”. dez dias depois, voltei para ver como estavam as coisas pela ilha. paragem no caminho de volta a Lisboa, onde o Boa Ideia, iria passar o Inverno.

uma visita de 2 dias, foi estendida para uma semana... ou duas. e o primeiro mês passou e novembro veio ameno... foi um bom inverno, e a primavera, chegou poderosa com os primeiros dias de calor a puxar para os banhos de mar, logo em março. estamos em julho e ainda aqui estou! 10 meses se passaram... e ir para onde?!?


é também paradoxal, olho para o meu barco, um verdadeiro navegador oceânico, que agora “anha” como diz a minha filha emprestada, ocioso (ou serei eu...) pelas águas do cabo de santa maria.


na ilha, a vida corre a um ritmo, marcado pelo tempo das marés e pelo tempo que se faz sentir, agora e daqui a bocado. o relógio não dita o tempo, apenas acompanha a maré e ajusta os horários do barco de passageiros.

o tempo não corre, apenas passa. o tempo abraça-se; está tempo para ir para o Mar; está temporal e é tempo de nos sentarmos à mesa com os amigos.

o tempo na Culatra é simplesmente único e intemporal!


os homens do mar, saem com o tempo instável. o mar não quer saber das necessidades dos homens. o mar oferece a estas gentes o seu sustento, a sua força, a sua raça de gente dura e unida. o mar oferece, mas por vezes em troca fica com um deles. um preço assumido a cada saída na noite fria de inverno. saídas que melhoram com a chegada do tempo quente.

gentes de tez morena e mãos feitas à dureza da vida do mar.

gentes que durante a tarde se senta em frente de um televisor e vêm um filme com invulgar atenção. não é um nem dois ou três. são às dezenas. gente que se comove com a criança que quer quer uma bola de uma maquina de moedinhas, que chora e tenta alcança-las enfiando o bracinho na saída dos prémios, gente que sente os olhos marearem-se com as histórias de amor e ódio num filme, de índios e colonos, na altura da “invasão” das américas.


gente que alimenta uma centena de gatos que proliferam pela ilha. o resultado da faina é também a eles distribuído.

gatos que são reis e rainhas sem vassalos. gatos que perseguem os cães, num cenário de incredulidade.


gente que em pleno inverno caminha na areia de calção indiferente ao frio, ou à chuva que afinal não é mais que água doce.

a culatra é uma terra de paradoxais encantos que parece ter

enfeitiçado, gerações de navegadores que aqui arribaram.

nos recantos desta ilha encontramos os ilhéus que convivem com gentes de longe que aqui chegou, pelo mar, e foi ficando. gentes que navegaram o mar único que une os continentes, com histó

rias de sonhar, como por exemplo o médico alemão que durante os tempos do muro de berlin, fugiu da antiga alemanha democrática, deix

ando para trás uma parte da família, num improvisado balão de ar quente, feito com tecidos, um queimador improvisado e garrafas de gás de cozinha. a poderosa máquina voadora, resistiu a um voo de pouco tempo, incendiando-se, mas caindo já no outro lado do muro. hoje vagueia pelo mar, sem prisões ou ancoras, que não seja de tempos a tempos voltar à culatra.

ou o cavalheiro inglês com um ar verdadeiramente marujão! no seu veleiro de dois mastros, onde a a chaleira do chá parece não ter descanso, e assobia a cada hora, ou será momento? sozinho, anda por aqui e por ali, visitando os amigos que se juntam nestas aguas, com o seu cachimbo, sempre fumegante. a roupa mais parece tirada do livro do robison crusoé, não fosse estar sozinho a bordo ainda esperaria por ver aparecer, placidamente, o Sexta Feira. este homem que vive só no meio de uma comunidade de navegadores, de vez em quando desaparece. em Faro apanha o avião, para a City. em Londres, despe a capa do marinheiro, e veste a de consultor sénior de uma empresa de capitais de risco... durante duas semanas cada dois meses, vem navegar noutra realidade. do seu barco nos mares do sul, com o computador portátil mantém à distancia uma actividade que apenas o obriga a estar na empresa de vez em quando.


Luiz, fez anos num qualquer dia de setembro de 2005. Argentino, moreno, com uma barba e bigode tipicamente argentino, é um clássico “bon vivant”!!! a mulher, com os seus quarenta e sete anos acompanha-o, no mais estável desequilíbrio. navegam num barco com o número de série 56. o ultimo construído por Luiz. este antigo professor de tango é uma força da natureza do alto dos seus oitenta anos.

Conhecemo-nos através do Alípio e da Gil. casal brasileiro, de espírito luminoso e alegria contagiante. nessa noite à nossa mesa estavam tugas, espanhóis, argentinos, ingleses, brasileiros, numa amalgama cultural de sonho. hoje olho para traz e as recordações transformam-me os lábios num sorriso e os olhos num oceano.

essa noite era a ultima noite para quase todos os presentes nas águas da ilha. no dia seguinte uns seguiram para espanha, outros para norte, e outros para o brasil. uns garrafões de água de ultima hora compunham a carga do nossos irmãos brasileiros. como se não fosse nada, aproveitaram os últimos momentos para carregar mais 10 litros do vital liquido... nem parecia que iam atravessar o oceano atlântico...

um mês depois recebi uma mensagem. estavam bem e felizes.


carmen, tinha tido um avc cerca de um anos antes. mal conseguia andar. nada que a fizesse parar! novamente o tempo muda nas nossas vidas. o que antigamente era uma coisa simples e rápida, agora leva o tempo que levasse. ficou-me gravado na memória a tinta da china: a certa altura quis ir à casa de banho. entre ela e o objectivo, nesse barco estava uma passagem do cockpit do veleiro, para o interior da cabine que ficava 4 degraus mais abaixo , protegida por uma antepara, para evitar a entrada de agua nos dias de temporal. não é pratico mas seguro no seu objectivo. oferece-mo para auxiliar. recebo um magnifico sorriso de recusa, e um balbúcio de que tinha que ser capaz. levou cerca de 15 minutos o que normalmente levaria 15 segundos. já no fundo das escadas olha para fora, põe os braços no ar e sorri. vitória!!! que mulher fantástica. que homem doce o que a acompanha em cada vitória ou cada derrota. mas sempre pronto. como tem de ser!


que vida fantástica se pode viver se quisermos estar abertos aos paradoxos.



terça-feira, 9 de setembro de 2008

Expedição Oceânica - Diário de Bordo

«I travel, not to go somewhere but just to go. I travel just for the travel sake!»

3 de Julho- domingo
A previsão meteorológica de hoje é semelhante à de dia 5, a nossa data prevista para partir para Angra do Heroísmo. Vamos aproveitar e sair para o mar para verificar como se comporta a «Zoom- Zoom».

12:23 Com cerca de 1200 litros de combustível, 5 tripulantes e a Orixá (a minha cadela da Terra Nova), rumamos a Vilamoura, onde nos vamos encontrar com a Eduarda. Já se faz sentir algum vento…
14:14 A ondulação é de Noroeste e acompanha o vento. Tem uma cadência curta o que faz com a «Zoom Zoom» salte de vez em quando com alguma violência.
16:20 O vento faz com exista alguma sorreada (quando o casco bate na onda faz um efeito de chuveiro que entra para o convés), resultado: já somos 5 e uma cadela bastante molhados… all good fun…
O meu filho emprestado e a Orixá estão a resistir estoicamente a um mar algo exigente e que obriga a progredir com alguma lentidão e atenção constante.
17:34 Novo objectivo: Baleeira- Logo a seguir à ponta de Sagres. O estado do mar está a alterar-se rapidamente e está cada vez mais encapelado. A ondulação muito curta e com 3 – 4 metros, está tornar a viagem difícil e demorada. Vamos aportar na Baleeira para deixar o Nuno e a Orixá e regressar a Alcácer do Sal, fazendo ainda algumas horas de noite, para testar o radar e sistemas de visão nocturna que a Marinha de Guerra nos emprestou.
18:15 Aportámos finalmente na Baleeira! Irra que esta fase final já foi bem «molhada»!!!
19:04 Regressámos à «Zoom Zoom» depois de uns bifinhos «leves».
19:20 Iniciamos a viagem de Regresso.

Os pescadores perguntam à Eduarda se vamos para Faro. «Não! Vão para Setúbal.» ao que eles respondem com um ar algo intrigante. «Ai, não vão, não! Nem chegam ao Cabo de São Vicente!!!» Resultado, ela foi ver como estavam as coisas a correr connosco um pouco mais à frente… não gostou de ver a versão: «Zoom Zoom em voo»…

19:23 De onde é que saíram estas ondas todas?!? E o vento?!?!
19:40 São apenas 10 milhas e ainda não chegámos ao Cabo de São Vicente e mais parece que alguém se entretém a agitar o mar.
19:55 Já conseguimos passar São Vicente… pode ser que um pouco mais a norte o mar melhore.
20:22 Porra!!! Parece que estamos em cima de uma cabra desaustinada.
20:28 Vamos ter que voltar para trás.
A ondulação curta com 6 a 8 metros não permite que a «Zoom Zoom» passe dos 8 nós e estamos sempre a «bater». Subimos, caímos, saltamos e ainda não passou uma onda já temos outra em cima. O vento com força 6 ou 7 não nos dá descanso. O conceito de «pinto encharcado» não pára de me vir à cabeça.
20:29 Navegamos a favor da ondulação e do vento. Devagar para não saltarmos nas ondas e batermos logo na seguinte. Na costa sul vai ser melhor.
20: 47 Mas será que isto não melhora?!?!?
21:05 O Venâncio e o Manel vão atrás do banco dos pilotos, eu estou ao leme e vamos a cerca de 25 nós. Vou de olhos fechados e o Comandante Gouveia e Melo dá as indicações protegido pelo vidro e a pelo toldo, beneficiando da sua elevada estatura (enorme estatura): « bóia à proa. Guina a Bombordo. Está safa. Corrige.» Felizmente não há sobreiros…
A ondulação tem apenas meio metro, mas o vento está muito forte o que gera uma sorreada impressionante, é quase impossível manter os olhos abertos, parece que temos uma mangueira de alta pressão apontada a nós. Nem os boxers estão secos, mesmo apesar dos fatos de alto mar.
21:13 Já conseguimos ver a entrada da Barra de Portimão. O Gouveia e Melo está ao Leme. Está a cantarolar… será que isto é bom sinal?!?!
21:38 Entrámos na Marina de Portimão. CALMARIA. Até que enfim.
22:40 E que bem que sabe um franguinho assado. Durante o jantar, o Cmt. Gouveia e Melo «sugere-nos» que se na Expedição «apanharmos este tipo de mar: Pedido de Auxilio imediato. Os heróis morrem cedo.»
00:11 Depois de tanto salto, o trabalhar suave do RX8 na auto-estrada às 6200 RPM parece uma sinfonia em que a soprano dos diz que desta já nos safámos.
Conclusão: a partida está adiada para quando o tempo esteja em melhores condições.

5 de Julho- terça-feira
A previsão meteorológica continua a dar um mar adverso mas com melhorias a partir de quinta-feira.

6 de Julho- quarta-feira
Tudo na mesma. Apenas a ansiedade aumenta. A partida está prevista para a noite de dia 8 para 9, de sexta para sábado. Vamos lá ver o que os ventos nos trazem.

7 de Julho- quinta-feira
Passo o tempo a falar com o João Cabeçadas do Team Alinghi que está em Valência e com a Marinha para nos manter-mos a par da Meteorologia. O bom desta ciência é que basicamente: não há garantias! Mas em principio é para amanhã.


8 de Julho- sexta-feira
06:25 Epá! Hoje nem foi preciso despertador.

Fazemos os últimos preparativos para a partida para os Açores. A equipa de terra parte no avião para a Terceira às 18:25. Estava previsto assistirem à nossa partida, mas com o adiar desta com o mau tempo, ainda vão sair antes de nós e em cerca de duas horas estão em Angra do Heroísmo. Nós, por outro lado vamos levar algumas horas mais. A previsão está em 36 horas (se o Mar deixar…)

17:30 O Alexandre veio despedir-se de nós, e com pompa e circunstância já navega no Sado frente a Alcácer do Sal com o seu veleiro «Zara», a bordo leva alguns entusiastas da «Expedição Oceânica MAZDA 2005», entre eles o vice presidente da câmara.
18:05 Vestimos os fatos de mar e partimos.
Tenho uma sensação de que uma grande parte do projecto acabou neste momento. Os meses de planeamento, de preparação da embarcação, sistemas de navegação e segurança, tudo levou imenso tempo. Felizmente para nós os nossos parceiros foram sempre mais do que simples patrocinadores e assumiram sempre uma postura muito positiva e activa. Agora, chegou o tempo de ir para o Mar. … finalmente!!!

18:53 A primeira fase está quase. Estamos já em frente à majestosa Serra da Arrábida, que mesmo exibindo as cicatrizes do incêndio, nos brinda com uma paisagem de encantar.
18:57 Olha quem se veio despedir de nós!!! Golfinhos. Resmas deles. Acompanham-nos durante algum tempo e com um à vontade que me surpreende. Brincam à nossa volta que entretanto avançamos quase ao «rolanti». Tento fotografá-los , mas ao mesmo tempo quero simplesmente olhar.
Um deles aproximou-se a não mais de 2 metros e parecia olhar para nós. Fantástico! Parecia desejar-nos uma boa viagem. Ou será que pensava apenas « mas estes tontos vão atravessar uma parte do Atlântico numa casca de noz!?!?» Bom fico-me pela boa viagem.
Rumo a Sesimbra onde iremos reabastecer os depósitos da «Zoom Zoom». São 3010 litros de gasolina ao todo. A bomba de gasolina fechou às 18 horas mas o «ti Custódio» vai fazer a simpatia de nos desenrascar. É um homem bem disposto, que já muitos viu partir para o Mar, todos eles com a esperança de conseguir algo.
22:35 Depois de mais de duas horas e meia a reabastecer vamos mas é comer um peixinho na brasa, que nas próximas horas vais ser a nossa melhor refeição.

O meu pai e o Carlos Martins vêm despedir-se de nós para a grande etapa da Expedição. O MRCC (maritime rescue coordination center) liga-nos com as ultimas previsões. Cerca da meia noite ligo novamente para o Cmt. Gouveia e Melo da Marinha de Guerra, para saber das ultimas da meteorologia. O mar continua com uma ondulação elevada e decidimos adiar a partida para as 05:00, desta forma ficamos atrás do mau tempo e temos a vida mais facilitada. Mal por mal, sempre vemos de onde vêem as ondas…

9 de Julho- sábado

Os agentes da Polícia Marítima da Capitania do Porte do Setúbal, tiveram que nos aturar um bocado e deixaram-nos descansar no Posto durante algumas horas.
Não dormi mesmo nada…
04:45 Levantar para partir. Chegou a hora.
04:50 Para meus espanto o Carlos Martins estava junto ao cais. O homem forte da Garmin, estava mesmo convicto na decisão de nos ver partir. É bom ver o empenho dalgumas pessoas.
05:35 Soltamos amarras e rumamos aos Açores.
A «Zoom Zoom» está mais pesada que nunca, mesmo nos limites da sua capacidade técnica. O motor de Estibordo desenvolveu um suave «tec-tec» que segundo o técnico não é nada de preocupante. Pois…
06:24 Estamos praticamente com terra fora do nosso alcance. Já saímos da protecção do Cabo Espichel e ondulação começa a aumentar. Há luz mas está tudo nublado.

O MRCC espera notícias nossas com a posição geográfica, rumo, velocidade e estado do mar e nosso, cada duas horas. Os tipos são óptimos e a nossa companhia para este desafio. A previsão é que o estado do mar se agrave nas próximas 180 a 200 milhas e que a partir daí melhore sempre até ao Mar dos Açores.

Penso que os Açores fazem parte do meu imaginário desde miúdo. O meu avô Simões, marinheiro desde os 16 anos, sempre me contou histórias de encantar sobre as «Ilhas das Brumas». E quando se tem um sonho temos que persegui-lo. Claro está que, ir de avião parece um pouco monótono e não se enquadra numa história!

08:11 O mar está cada vez mais agreste a ondulação continua a aumentar. A previsão meteorológica é sempre uma previsão. Não uma garantia. Como piloto de balões de ar quente, foram inúmeras as vezes que as previsões não batiam certas. Vento que não veio, chuva que não caiu ou o Sol que teimava em não aparecer. Não se trata dos meteorologistas ou de quem faz a análise. Simplesmente (e felizmente) não conseguimos controlar o Tempo.

10:40 Nas comunicações com o MRCC reporto um agravamento das condições climatéricas. Temos ondas de 3 a 4 metros. Ondulação larga mas pouco vento.
Mesmo assim a «Zoom Zoom» bate de vez em quanto com alguma violência.

11:00 Não conseguimos avançar ao ritmo previsto de uma média de 22 nós. Neste momento, devemos estar nos 13 nós de média. E o tempo continua a deteriorar-se. Quem é que falou que isto ia melhorar?!?

O tempo passa e já nem vejo as horas. O alarme avisa-me que quando tenho que reportar ao MRCC.

Estamos a perder combustível e o cheiro a gasolina a bordo é intenso. O Venâncio, que não gosta muito do odor está um pouco indisposto.
Os depósitos de combustível formam um paralelepípedo, quando subimos a onda temos uma inclinação para estibordo e quando descemos para bombordo. Resultado o tanque do meio está a perder alguma gasolina pelo respirador.


13:55 Com o agravamento do tempo já estamos molhados há algumas horas. Com um bocado de sorte o Sol aparece e a coisa melhora.
O Venâncio já recuperou do mau estar.

Um dos tubos de respiração dum tanque com o impacto nas ondas soltou-se do bordo da embarcação e caiu para o convés o que fez com que a gasolina voltasse a passear nos nossos pés o que não ajuda nada, visto que parece que andamos em manteiga e é impossível fixar os pés no convés. Decidi rastejar por cima do depósito para recolocar o respirador no exterior… a «Zoom Zoom» deu dois saltos e eu pensei que tinha partido as costelas todas. Não sei se da dor ou do cheiro a gasolina, mas tive a sensação cósmica de ver estrelas!!! Felizmente que já tinha posto o respirador no exterior.

Apesar de a comida estar apenas a cerca de um metro de nós para a vante, ainda ninguém comeu. Não que não haja fome mas com os saltos da embarcação parece ser uma tarefa difícil.

Temos um gigantesco super petroleiro á vista. IMPRESSIONANTE. Com cerca de 300 metros de comprimento, parece uma montanha no Mar. O Manel está ao leme e decide cruzar a proa do navio. «Vais cruzar a proa?!?» foi a minha pergunta. «Vou! Nós estamos a avançar muito mais rápido que ele, não há problema.»
O Venâncio vinha deitado no puf que serve de zona de descanso, levanta-se para ver o outro navio e imediatamente pergunta: « Vais cruzar a proa?!?!» O Manel já com ar de mas estes gajos estão tontos dispara: « Preferem que eu passe por trás???» Ao que respondemos que não, ele é que está ao leme, ele decide.
Fez-se silencio, analisou-se o coeficiente de cagaço e a sensação que tenho é que ficámos todos apertadinhos até a «Zoom Zoom» ter passado aquele colosso, que do alto dos seus cerca de 40 metros de largura e quase 15 de altura, desaparecia por trás das ondas que rebentavam contra a sua proa.
Perante está demonstração inequívoca da relatividade, todos pensámos para com os nossos fechos (sim, porque nos fatos de alto mar não temos botões) «afinal, as ondas até são granditas…»

Antes do fim do dia ainda nos cruzámos com um navio estranhíssimo que é tipo camião de caixa aberta. Faz o transporte de outros navios e plataformas petrolíferas, pelo que tem uma forma realmente estranha.

21:00 A noite aproxima-se e do bom tempo nada.

Ao telefone por satélite, já bastante cansado perguntei onde estava o bom tempo. «Mais á frente, aos 018º Oeste vai melhorar.» e como dizia o poeta: «mas isso é longe como o caraças!!!»

Estamos desde as oito da manhã molhados e sempre, sempre a apanhar mar. Nem uma mijinha conseguimos fazer. Vou descansar abraçado ao puf.

Estamos a chegar ao ponto de não retorno. Dentro de momentos não será possível voltar para trás porque não vamos ter combustível.
Voltar para trás é uma decisão que tenho que tomar sozinho. O Mar, mostra a sua força e a noite caiu.
Não consigo afastar da minha cabeça que os meus sonhos de aventura podem ser eventualmente fatais e que para além disso tenho dois Amigos a bordo que vieram por que quiseram, mas acima de tudo porque lhes pedi…
Ainda não fizemos um terço da grande viagem.

Antes de mais: descansar.

23:27 Assumo o leme.
O Manel e o Venâcio vão descansar.
Bolas, que não se vê nada de nada. Nem mesmo as ondas. O céu completamente encoberto traz uma sensação estranha.

Vamos continuar! Se partimos para ligar Alcácer do Sal a Angra do Heroísmo, é isso que vamos fazer. As 36 horas caíram. O importante é chegar bem e quando for, será. Temos uma boa embarcação bons sistemas de navegação e segurança. E sobretudo: uma EXCELENTE TRIPULAÇÃO. Temos pessoas que gostamos e as gentes dos Açores a apoiarem-nos e à nossa espera. Por isso, Vamos chegar.


01:40 Estamos desde o inicio da noite sem comunicações por satélite.
A navegação é feita pelo radar em que faço coincidir com a nossa proa no ecrã a nossa Rota. A distancia para o ponto de chegada, um algarismo em milhas no canto inferior direito do ecrã, vai diminuindo a uma velocidade adormecedora.
O impacto das ondas contra o casco passou de um de vez em quando, que nos preocupava, para um quase continuo, que à força da inevitabilidade, embala o sono.

02:52 Chamo pelo Venâncio e pelo Manel. Mas o barulho dos motores e do Mar. Os fatos fechados até acima com os capuzes apertados, aliado ao cansaço, ninguém responde e estou mesmo à rasquinha para dar uma mijadelazita

03:20 Isto está a tornar-se doloroso e ninguém acorda.
Não posso tirar andamento devido ao estado do Mar e mesmo que o fizesse também não conseguiria manter-me quieto para…

03:22 Huuuummmmmm!!! O que tem que ser, tem muita força e pela primeira vez nas ultimas quase 24 horas estou quentinho. Bom… estranhamente quente!!!

03:25 Agora estou frio… se calhar isto não foi boa ideia…

Estou praticamente a dormir ao leme. Quando o Manel me substituiu penso que estava mesmo a dormir em pé. Apenas abria os olhos para verificar se a minha proa virtual coincidia com a Rota.
Por segurança estamos todos sempre presos à embarcação por uns «cabos de vida» e os nossos coletes são hidrostáticos, o que quer dizer que mesmo que um tripulante caia ao Mar e perca a consciência, o colete insufla.

Acordei cerca das seis da manhã, está na altura do Manel ir descansar. O Venâncio também já está de pé. Tremo compulsivamente. Ponho as mãos nas pequena mesa da consola mas nem assim parecem querer parar. Como estamos molhados, assim que entramos nos períodos de descanso o que implica relaxar os músculos, o frio ataca em força, corremos o risco de hipotermia. Pelo que é vital que mantenhamos uma atenção constante uns sobre os outros, especialmente sobre quem está a descansar.
De repente apercebemo-nos que não comemos nada desde o peixinho grelhado em Sesimbra e isso já foi à mais de 24 horas… O Mar não colaborava por isso ninguém foi à «dispensa».
Sandes de Presunto e umas bebidas energéticas de cor duvidosa, fizeram com que o corpo recuperasse e o dia até parecia melhor.

09:47 Um enorme bando de golfinhos acompanha a «Zoom Zoom», parece que voam nas ondas. É impressionante como estes animais evoluem na água, não nadam, deslizam como se não houvesse qualquer atrito.

Avistamos um navio em rumo contrário ao nosso, com um ar bastante «decrépito». Todo ele era ferrugem e sem qualquer indicação de nome ou bandeira. Era um cargueiro estranho.

O Sol parece querer romper. Felizmente. Algum calor seria sem dúvida importante para nós que estamos molhados e sem qualquer hipótese de gerar energia para aquecimento.

10:45 Conseguimos cobertura de satélite. A comunicação verbal é muito fraca. Envio sms para o Bruno Oliveira (do CCE- Centro de Coordenação da Expedição) e para a minha mulher com as nossas coordenadas, velocidade, rumo e como estamos. «Estamos bem!» como é óbvio. Omito que o motor de estibordo aumentou o barulho e agora parece um martelo eléctrico a trabalhar bem junto aos nossos ouvidos. Porém não apresenta qualquer perca de rendimento ou mudança de níveis nos computador de bordo… Vamos lá ver!

Temos 3 depósitos de combustível a bordo: dois no convés com capacidade de 1080 litros cada um. Foram construídos em alumínio, para serem leves, pelos Transportes Bizarro que quando souberam do projecto, se ofereceram para os construir, visto que têm uma enorme experiência na soldadura de alumínio, o que se acredite ou não em Portugal não é comum. É sempre gratificante ver que ainda existem projectos que nos fazem sonhar e a participação num sonho é motivo de satisfação; temos mais um depósito interno em inox de 850 litros que será o ultimo a utilizar, para uma fase mais rápida da Expedição em que vamos tentar recuperar algum tempo.

12:45 Tento enviar novas coordenadas mas estamos novamente sem comunicações por Satélite.
O Sol já está connosco. Navegamos num Mar azul quase inacreditável. A ondulação está nos 3 – 4 metros mas mais larga o que nos permite avançar um pouco mais depressa. Estamos a fazer médias de 25 nós.

As forças da natureza são fabulosas. As ondas deslocam-se mais rápidas que nós, que as atravessamos transversalmente. Bom, atravessamos, é como quem diz! Atravessamos se elas deixam. Para o conseguirmos temos que embalar numa «descida» e ganhar velocidade. Por vezes a distância é de tal forma entre uma crista e outra que quando estamos a subir «as costas» da onda que queremos passar, começamos a «patinar, patinar» e não temos outra solução que não guinar a estibordo e «surfar» a seguinte

Ficamos sem combustível no segundo tanque. JÁAA?!?!?!?!? Algo de errado se passa
Dos 1080 litros gastámos cerca de 840. Do primeiro também tínhamos perdido cerca de 40. o que quer dizer menos 280 litros no total, tinham sido perdidos devido à forte ondulação que os fez sair pelos respiradores.
Começamos imediatamente a recalcular os nossos consumos para o resto da viagem. Ainda nos faltam 360 milhas e estamos a gastar cerca de 60 litros hora, a uma média de 25 milhas/hora. Como não podemos contar com a totalidade dos 850 litros do depósito, porque normalmente não se consegue gastar até ao fim... Não chega, para chegarmos.

Temos que reduzir a velocidade e logo o consumo, mas aumentamos o tempo…
Chegamos à conclusão que se reduzirmos para as 23 milhas por hora, reduzimos o consumo e permite-nos chegar à justa ou pelo menos ficarmos sem combustível já perto da Terceira.

16:38 O Mar deu-nos uma folga. Baixou para 2 -3 metros e ondulação larga, sem vento. Já nos basta o stress de vermos o combustível a baixar mais depressa que as milhas que faltam.
O SOL está connosco.
Não à nada como dar valor a coisas que normalmente não ligamos. Pela primeira vez nesta aventura estamos algo confortáveis e para isso basta-nos ficarmos um pouco ao Sol. Sentirmos os fatos a aquecer sem termos que estar a contrair músculos faz com o que nosso puf se transforme numa confortável cama depois de um dia cansativo.


Sem sabermos a nossa equipa em Angra está reunida com o Cmt. Matias - Capitão do Porte de Angra e com o Cmt. Gil da Corveta da Marinha. Como não têm notícias nossas desde as 10 da manhã começa-se a temer o pior. O MRCC considera a hipótese de lançar uma Operação SAR (search and rescue). Mas tal como eu disse à minha mulher antes de partir: «no news, good news!». Temos a bordo uma sofisticada balsa de salvamento cedida pela Marinha e temos também um sistema designado por «EPIRB». Este quando accionado manualmente ou por contacto com a água começa a emitir um sinal de emergência em dupla frequência para satélites que no máximo pode estar sem ser detectado 40 minutos. Assim que nós naufraguemos ou tenhamos uma avaria que não possamos avançar accionamos a EPIRB.

17:33 Continuamos sem comunicações por satélite e o VHF está fora de uma distância que permita operar.

Mantemos o telefone por satélite próximo para ver se nalgum momento recupera a cobertura. Mas nada acontece.

As condições do Mar vão melhorando e a ondulação já raramente ultrapassa os 2 metros. Que pena não podermos por os 400 cavalos dos motores da «Zoom Zoom» a debitarem potência.

Uma das sensações mais curiosas é a desorientação que facilmente se incorre. Com o movimento das ondas a nossa direcção é subtilmente desviada, normalmente para sul e só mesmo o olhar para o GPS nos dá conta do desvio. Mas, para mim, o mais fascinante é a estranha sensação de que estou a descrever uma curva, sinto sensorialmente que vou a fazer um circulo, mas o GPS indica que continuo a direito. No entanto a sensação é de tal forma forte que confirmo os valores do GPS com a Bússola Magnética, porque penso poder existir uma avaria. Conclusão: continuamos no mesmo rumo. Devo estar a ficar cansado!!!

19:57 Com o passar do tempo o nosso peso diminui e o Tempo melhora o que se reflecte em melhores consumos. Já conseguimos aumentar um nó à nossa média, mantendo o mesmo consumo instantâneo.

A nossa previsão de chegada é agora para uma janela entre as 02:30 e as 03:10 mas infelizmente continuamos sem comunicações por satélite e não podemos avisar ninguém em Angra ou o MRCC de Ponta Delgada. Espero que estejam todos bem, que se lembrem que a falta de notícias é (relativamente) e que não haja nenhum acesso de ansiedade, é que na realidade pensam que a nossa chegada seria cerca das 18 horas locais…

21:08 Satélite nada.
Já falhamos 4 transmissões hoje. Como não nos cruzamos com outras embarcações também não posso pedir para alguém retransmitir a nossa posição.
Mais uma noite à nossa frente. Bom neste caso uma noite que nos alcança. Mas esta será melhor. Deixámos de estar molhados para simplesmente húmidos. O que dadas as circunstâncias é uma enorme melhoria. Temos comido barras energéticas, chocolates, bolachas e as tais bebidas coloridas e a moral da tripulação está em alta. Só faltam mais algumas horas.

22:00 Tenho a sensação de ter ouvido ruído no VHF
Faço várias chamadas:
«Aqui Zoom Zoom, Zoom Zoom, Zoom Zoom»
«Chama qualquer estação à escuta»
«Escuto»

Deixo passar alguns minutos e repito.
Nada.

«This is Zoom Zoom, Zoom Zoom, Zoom Zoom»
«Calling any station listening»
«Over»

Nada

Passo então em cada meia hora a transmitir a nossa posição mesmo sem que ninguém responda. Chama-se a isto uma «transmissão às cegas» ou «blind transmission»

«Aqui Zoom Zoom, Zoom Zoom, Zoom Zoom»
«Transmissão às cegas»
«Posição N 38º04’ ; W 18º45’; Rumo 280º; velocidade 24nós»
«Escuto»

Este tipo de transmissão com a indicação «às cegas» faz com que qualquer outra estação a vá retransmitir para um centro de coordenação em terra e assim ficam a saber que estamos bem. Assim iniciei uma nova rotina em português e inglês, cada meia hora.


22:45 Tenho um eco forte no Radar. Mudo para Carta Nautica e não tenho nada nessa posição. Volto ao Radar e o eco continua mas mais forte.
22:47 O eco tem deslocação e contrária à nossa.
22:49 A soma das duas velocidades é qualquer coisa como 38 nós e pela dimensão é um navio grande.
22:51 Algo está errado. A esta distância radar já deveríamos ter contacto visual. A noite está muito escura, sem Lua.
22:53 O eco está a cerca de 5 milhas e aproxima-se. Não conseguimos identificar nada no horizonte. A partir deste momento considero o eco como uma ameaça e preparamos uma manobra evasiva.

Lembro-me que nos foi sugerido trazer uma arma a bordo. No Mar, se tivermos uma avaria ficamos à mercê de qualquer pessoa, que pode ter boas ou más intenções. E por vezes aparecem navios à deriva sem qualquer sinal da tripulação… Assim o Manel que é militar na reserva, trouxe consigo uma arma, como descarga de consciência.

Vou manter o Rumo até uma distância muito próxima, na casa dos 500 metros. Assim a outra embarcação partirá do principio que não foi detectada. Nessa altura guinamos a Bombordo e damos motor. Pelo tamanho do eco a outra embarcação tem que ser de grande porte e logo mais lenta que nós.

Que bom seria ter mais gasolina...

23:04 Guinamos a bombordo. Continuamos sem contacto visual. Sinto uma estranha sensação. Que raio está ao nosso lado e não conseguimos ver!!!

23:06 Era só o que me faltava, o eco manobrou a estibordo e segue-nos. Vamos mas é a dar motor que isto aqui não me agrada nada mesmo…

23:40 Estamos safos! O eco já se encontra longe e com a sua a rota a abrir para mais a norte que a nossa. Possa!!! Que esta foi esquisita.

01:50 ehehehe já começamos a ver algumas luzes de outras embarcações de pesca e ao longe para Sul / Sudoeste parece-me ver um clarão na noite que deve ser São Miguel.

02:10 Conseguimos finalmente cobertura por Satélite. Fraca, mas já é qualquer coisa.
Consigo enviar sms para a minha mulher para dizer que estamos bem, devemos chegar dentro de mais uma hora, mas «vamos ver se a gasolina chega…», que nos venham esperar ao cais, ligo mais tarde.

02:27 Conseguimos ver o primeiro farol da Terceira. Uma enorme força anímica cresce dentro de nós. Já falta pouco.

02:45 Terra à Vista

Quase que me apetece chorar de alegria. Quase 900 milhas depois de termo iniciado a nossa viagem estamos a um momento de conseguir chegar, concretizar um sonho! Só espero que a gasolina chegue.
É estranho, mas depois de tantas horas no Mar, quando nos aproximamos de terra vem um cheiro… menos agradável… Os homens do mar já me tinham falado nisto, mas… afinal é verdade.

A esta hora já só as nossas mulheres e amigos devem resistir à nossa espera. Mas vamos chegar. Vamos chegar!!!!

03:01 Estamos a navegar a Sul da Terceira.
O radar enche-se de ecos que conjuntamente com o cansaço nos confundem. Então é altura de utilizar os Óculos de Visão Nocturna que o Corpo de Fuzileiros e a Marinha nos emprestaram.
Fascinante. Apagamos as luzes de navegação e tudo fica verde e visível. Até uma gaivota a voar junto à nossa proa.
Passamos o Ilhéu das Cabras e vemos a entrada do Porto de Angra. Mais uns metros e estamos lá.

Passamos o pontão onde um Policia Marítimo nos acena e regista o nosso tempo. É a primeira pessoa que vemos desde que partimos.

Não acredito!!! Não tem descrição.
O cais está repleto de pessoas. Vejo a minha mulher e os nossos amigos. Pessoas que não nos conhecem e ali estão a dar calor à nossa chegada. Se calhar sem ter a noção de como é importante a sua presença. Apenas quem passa tanto tempo nestas condições pode sentir o que significa ter tanta gente ali.
Encostamos ao cais. É com os olhos aguados que abraço o meu amor e que digo:
Conseguimos, Chegámos, amo tu, Moki.
Sinto que nasci de novo, que tenho grandes Amigos e que são eles e as experiências de vida que nos fazem crescer.

Como dizia Platão:
«Existem três tipos de Homens: os Vivos; os Mortos e os que andam no Mar»

P.S.1 O eco que nos assustou era o nosso «anjo da guarda»! O Cmt.Gil e a tripulação da corveta da Marinha, partiram antes das 18 horas com um rumo contrário ao nosso e avistou-nos cerca das 22 horas tendo informado terra que estávamos bem e continuávamos a avançar. Tentou contactar-nos mas uma avaria no nosso VHF, provocada pelos vapores das baterias provocou um mal funcionamento qualquer.
P.S.2 A gasolina chegou e o motor aguentou-se.
P.S.3 A todos os que nos apoiaram: Muito, muito OBRIGADO!

Notícias (?) cá da Tugolândia!!!


Nesta tugolandia tudo continua cada vez mais na mesma, como tenho a certeza q tu saberá, talvez até melhor que eu... sim porque há cerca de 3 meses que não ligo muito às novidades cá do burgo!
num sentido neo-revolucionário, insurgi-me contra a a ditadura dos meios de comunição, q de isentos, só se forem nos impostos e todos os dias nos condicionam com aquilo que os «senhores da tugolandia» querem que a mediocre sociedade tuga, «pavlovianamente», responda!
quando vejo os noticiários, é deprimente. as noticias são sempre as mesmas, mesmo q comparadas com à três meses atrás!!! ... bem... lá vamos tendo um furacãozito e umas quedas de aviões, para o pessoal cá da terrinha pensar que ainda existem pessoas em situações «menos agradáveis»!!!
pareço agastado?!? nem por isso. acho q ja passei essa fase! agora estou apenas de partida. sem vontade de combater a falta de tomates reinante, em q rezingam no café acalorados pelas «jolas», chegam a casa e ignoram os filhos (contribuindo para a manutenção geracional de medíocres) e se ainda tiverem força para isso, vai uma dosezite de violência doméstica, ja que a mulher está mais a jeito que o patrão ou um politico favorito!!! com esta receita fabulosa, poderá ter uma noite descansada e vitoriosa ( a menos que seja do SLB) e ir para o seu posto de trabalho deprimentente, sem ser muito opinativo, produtivo ou outra coisas qualquer que faça o mundo girar um pouco mais depressa, na realidade, contribuido menos que uma qualquer outra ovelha do rebanho!!!
ehehehe devo tar inspirado!!!